Orientações no Mundo – por Luis Marcio Silva

Texto de Luis Marcio Silva

É interessante observar a presença dos portugueses no Japão, como apontam materiais históricos acerca da Companhia de Jesus no Oriente durante o percurso desbravador do século XVI. Mas atando as pontas, num salto histórico, após a abertura dos portos na segunda metade do século XIX, que levou ao fim o chamado Período Edo, o Japão sofreu uma extraordinária modernização no plano da tecnologia e das artes. Mas o fascínio do japonismo de outrora rebentou barragens e já se estabelecia na formação de um pintor holandês como Vicent van Gogh (ver o lindíssimo quadro “A Cortesã”). No início do século XX, na Alemanha, os precursores da Escola Bahaus convidam artistas japoneses para compor uma parcela do quadro de professores na arquitetura, na pintura, na teoria, etc; até que se chega a uma certa “arquitetura da destruição” com a ascensão nazista que promoverá perseguições contra os artistas. Mas toda essa tonalidade oriental já criara vida própria e foi sentida gradualmente cada vez mais nas vanguardas e no modernismo Europeu.

Gustave Klimt; Paul Klee; os artistas visuais, no caso de Klimt, muitas vezes usam artefatos, vestimentas orientais (ver “O Beijo”). No caso de Klee, arrisco dizer que alguns símbolos se aproximam de ideogramas no suposto caos do abstracionismo (ver quadro “Porto Rico”). No “ABC da literatura”, Ezra Pound se aproxima dos ideogramas para explicar as soberbas e elegantes imagens que se escondem (ou se abrem) na composição do poema.

No Brasil, por nossa vez, as fronteiras nos primeiros decênios do século XX se dispersam com a entrada dos imigrantes. Um grande cultor das formas tradicionais do haikai se dá conta de que um Guilherme de Almeida está à sua espera. Ele introduz e dá sua própria forma rítmica às imagens densas na estrutura do poema nipônico: Na cidade, a lua/ a joia branca que boia/ na lama da rua. O maestro Heitor Villa-Lobos compõe na sua primeira fase a canção “Japonesas”, peça inspirada no soneto “Sobre um biombo japonez”, do esquecido poeta e diplomata Luis Guimarães Filho. O embaixador durante seu consulado em Tóquio assimila as formas da arte e a introduz no início do século no Brasil. Publicado no extinto Suplemento d’O Malho, o soneto “Sobre um biombo japonez” merece ser divulgado:

SOBRE UM BIOMBO JAPONEZ

Ó gueixas! bonecas vivas

de roupagens multicores,

Ó gueixas! vós sois esquivas

Como os gatos… e os amores.

Tendes olhos zombadores

e atitudes pensativas:

Ora sois jarras de flores

Ora sois pombas cativas.

À noite, em doce abandono

moveis o alado quimono

ao lento som das guitarras…

O chá fumega na esteira…

E na sombra hospitaleira

morrem cantando as cigarras…

Por outro lado, obnubilado pela sombra de sua própria prosa, o poeta Guimarães Rosa escreve seu primeiro e único livro de poemas, “Magma” (1936), com uma parte dedicada aos haikais baixando o espírito das coisas íntimas em Riqueza: Veio ao meu quarto um besouro/ de asas verdes e ouro/ e fez do meu quarto uma joalharia.

Com música, pinturas e palavras, já se percebe o fascínio pelos artistas por um mundo tão excêntrico para os europeus e para nós que estamos habituados a uma mentalidade essencialmente cristã. Mas, claro, o assunto é longo e complexo, e merece uma pesquisa de fôlego para iluminar ainda mais certas orientações, sobretudo aquelas que estão presentes em nosso “Modernismo” (1922).

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