Poemas do escritor mexicano Jorge Vargas

É com muita honra que compartilho com o leitor de língua portuguesa uma seleção de poemas do fotógrafo e poeta mexicano Jorge Vargas (1990). A interlocução a partir de mensagens e de telefonemas, ainda que estes interrompidos pela nossa distância entre México e Brasil, possibilitou uma troca muito rica para que a partir da poesia de Vargas eu pudesse compreender os problemas relativos à história de seu país, dos anônimos às figuras icônicas, como bem representados em alguns de seus versos. Ademais, Jorge Vargas mantém correspondência com a poesia de outros países, sendo notado sobretudo e merecidamente por escritores franceses da poesia contemporânea. Entre nossas conversas, propus traduzir sua obra para o nosso português, trabalho que aqui se inicia com os textos publicados na Piparote.

Boas leituras!


I

Sou o palhaço

De um ser invisível e cruel

Olho para o céu

            Abro a boca

Que diferença faz se cai a chuva

O vento                       o sangue

Ou as andorinhas.


II

Deveriam secar o mar

Para que não se ouça tanto

Porque quando o rumor das ondas vem

             Ele não vem sozinho

Traz consigo escombros

Cadáveres silenciados

O retrato obscuro daqueles que já não estão

E que lutam todavia contra a espuma do esquecimento.

É melhor que se seque o mar

Porque a maresia avança sobre um território

Que já não nos pertence

Cada vez mais longíquo

Sem corpo

            Sem peso.

A música do mar me confunde

Ela fala de uma terra

Onde paramos de arrastar a dor,

A flora e a fauna

Homens e mulheres

            Que são minha fraternidade.

Depois

Cansado

            Fecho os olhos

Volto a escutar a música do mar

E as ondas rolam sobre a palavra desterro.

Por isso penso que é melhor deixar secar o mar

Para que não soe tanto o seu rumor.


III – Poemeditação para não dormir profundamente

Respire pelo nariz três vezes

Inala                exala

Inala exala

Qualquer pensamento que cruze por tua cabeça

Não a retenhas

Não a julgues

Deixe-a ir.

Concentre suavemente a atenção em teu braço direito

O mesmo que estende para pedir piedade à vida.

Sim

Esse com o qual se rasga a cabeça quando não suporta um parasita

Esse que abraça teu estômago quando a fome aumenta

Inala                exala

Sinta como pouco a pouco fica denso

Como se fica pesado

Repita            meu braço direito está pesado

                                    Meu braço direito está pesado

                                               Meu braço direito está pesado

Concentre a atenção em teu braço

Deixe que teu coração também se faça pedra

Que pensa.

Esqueça as mortes

Esqueça a violência

Esqueça as desaparições.

Deixa-te levar

Teu corpo é um rio que desemboca no mar

Sinta como te arrasta a corrente

Escute como ladra a água

As pedras te mordem

Repita

Meu corpo é pesado

Meu corpo é pesado como o de Manuel Arias

Ao que apelidaram de Mariachi.

Seu corpo pesava depois de assassinado pelos disparos

Como o de Raúl Hernández Romero

Espancado e mortalmente desferido

Com um corte na cabeça.

Meu corpo é pesado

Como o da pequena Fátima

Que foi violentada, torturada,

Colocada em uma bolsa de plástico.

Porque quanto menor o corpo

            Mais pesa.

Pesado está meu corpo

Meu corpo

Seu corpo

Os corpos.

                        Inala    exala

Sinta como pouco a pouco

Todos os corpos caem sobre ti

Esqueça a insônia

Esqueça as noites

Que nunca serão como nunca

Sinta como a miséria vai perdurando atrás

O inferno permanece atrás.

Escute a água              que já não ladra

E tem gosto de sal

                                    Quase a chegar…


XIII

Sou da geração

dos desastres

a que finge perder seus estribos,

embora centenas

bilhões de centenas

de rostos desorbitados

envernizem seus destinos.

Por que o homem é o único ser vivo

capaz de contemplar

o próprio horizonte,

insípida púrpura, enferrujada penumbra?

Sou da geração

Que como tantas outras

Perdidas,

Secas, áridas,

Desfilam de cabeça erguida,

Mas com a dignidade branda

Soterrada no campo de batalha.


VI

Tudo se passou muito lentamente,

Saboreamos a juventude

Como se saboreia uma manga no verão

Sem saber que essa seria a nossa derrota.

Roubaram-nos o sonho

Aprisionando a noite com os lobos.

Tiraram-nos tudo.

Saquearam as palavras

Até que a pátria ganhou sinônimo de injustiça,

Mar tempestuoso,

Menino brincando de se esconder

No calabouço do verdugo.

Optamos por criar filhos em meio às casas flamejantes

Com as bocas respirando pelas janelas

Enquanto acreditávamos ingenuamente,

Pagando em dia nossos impostos,

Que os disparos jamais nos tocariam

E não contamos quantos perfuraram nossos corpos.


Abaixo, seguem os poemas de Jorge Vargas originalmente escritos em espanhol.

I

Soy el payaso

De un ser invisible y despiadado

Miro al cielo

            Abro la boca

Qué más da si cae lluvia

Viento             sangre

O golondrinas.


II

Deberían dejar secar el mar

Para que no se escuche tanto

Porque cuando el rumor de las olas viene

No viene solo

Trae consigo escombros

Cadáveres silenciados

El recuerdo oscuro de los que ya no están

Y que luchan todavía contra la espuma del olvido.

Es mejor que se seque el mar

Porque la marea crece sobre un territorio

Que ya no nos pertenece.

Cada vez más lejano

Sin cuerpo

            Sin peso.

La música del mar me confunde

Habla de una tierra

Donde dejamos de arrastrar el dolor

La flora y la fauna

Hombres y mujeres

            Son mis hermanos.

Después

Cansado

            Cierro los ojos

Vuelvo a escuchar la música del mar

Y las olas revuelcan la palabra destierro.

Por eso pienso que es mejor dejar secar el mar

Para que no suene tanto su rumor.


III – Poémeditation para no dormir profundamente

Respira por la nariz tres veces tres

Inhala              Exhala

Inhala exhala.

Cualquier pensamiento que cruce por tu cabeza

No lo retengas

No lo juzgues

Déjalo ir.

Enfoca suavemente tu atención en tu brazo derecho

El mismo que extiendes para pedirle piedad a la vida.

Ese con el cual te rascas la cabeza cuando no soportas los piojos

El que abraza tu estomago cuando el hambre crece.

Inhala              exhala

Siente como poco a poco se hace denso

Como se hace pesado

Repite             mi brazo derecho es pesado

                                    mi brazo derecho es pesado

                                               mi brazo derecho es pesado

Enfoca tu atención en tu brazo y

Deja que tu corazón también se haga de piedra

Que pese.

Olvida las muertes

Olvida la violencia

Las desapariciones.

Déjate llevar

Tu cuerpo es un río que desemboca en el mar

Siente como te arrastra la corriente

Escucha como ladra el agua

las piedras te muerden

Repite

Mi cuerpo es pesado

Mi cuerpo es pesado como el de Manuel Arias

Al que apodaban el mariachi.

Su cuerpo pesaba después ser asesinado a balazos.

O el de Raúl Hernández Romero

Golpeado y herido de muerte

Con un corte en la cabeza.

Mi cuerpo es pesado

Como el de la pequeña Fátima

Que fue violada, torturada,

Puesta en una bolsa de plástico.

Porque entre más pequeño el cuerpo

            Más pesa.

Pesado es mi cuerpo

Mi cuerpo

Su cuerpo

Los cuerpos.

Inhala exhala

Siente como poco a poco

Todos los cuerpos caen sobre ti

Olvida el insomnio

Olvida las noches

que nunca serán como nunca

Siente como la miseria va quedando atrás

El infierno ha quedado atrás.

Escucha el agua                      ya no ladra

Y sabe a sal

                        Hemos llegado.


XIII

Soy de la generación 

de los estragos.

La que finge perder los estribos.

Aunque cientos

billones de cientos

de rostros desorbitados

engrasan sus destinos.

¿por qué el hombre es el único ser vivo

capaz de contemplar

el horizonte,

raído púrpura, oxidada penumbra ?

Soy de la generación 

Que como otras tantas

perdidas,

Secas, áridas,

desfilan cabeza erguida,

pero con la dignidad blanda,

hundida en el campo de batalla.


VI

Todo pasó muy despacio,

Saboreamos la juventud

Como se saborea un mango en verano

Sin saber que esa sería nuestra derrota.

Nos robaron el sueño

Aprisionando la noche con lobos.

Nos quitaron todo.

Saquearon las palabras

Hasta que patria fue sinónimo de injusticia

Mar tempestuoso

Niño jugando a esconderse

En el calabozo del verdugo.

Optamos por criar hijos en medio de casas en llamas

Con bocas succionando desde las ventanas

Mientras creíamos estúpidamente

Pagando a tiempos nuestros impuestos

Que las balas jamás nos tocarían

Y no advertimos cuantas perforaron nuestros cuerpos.


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