Incunábulos – Por Júlio Bonatti


O caminhar das páginas de um livro, ademais escritas nessa vocálica língua de espectro vulgar em latinidade, carrega acentos, pontos, vírgulas, letras magras e roliças, espaços os mais variáveis, densidade de longas palavras, palavretas curtíssimas, locuções galopantes e outras tantas preciosidades que só o ato minucioso da leitura especializada e metricamente planeada pode revelar.

            Alguns rastros se reduzem a apenas uma letra. Curioso, parece-me um traço natural da audição e da capacidade fonológica do falante português apreciar os verbos terminados em “ar”: tais o “gozar”, o “mijar”, o “trucidar”, o “suicidar”, ignorando-se a partícula reflexiva deste último – como poderíamos fazer valer em todos. E vejo, assim, como o linguajar inventado é maior do que o próprio idioma, tornando-se até o elemento definidor de mais relevância na faculdade animal da linguagem.

            Dou-me por satisfeito ter constatado isso e creio desnecessário continuar essa observação da linguística crítica – ao menos nesse momento de comprovação científica ou, para ser mais direto em graus epistemológicos, de comprovação hipostática: verbum finitum est. E a infinitude da palavra pensada não se expressa por falta de espaço hábil. A dupla natureza do ato fundador do pensar, ao mesmo instante fluxo e substância, distrai-se com sua própria beleza e presta-se à germinal arte da latência. Esquiva, escapa, evita: o líquido seminal do cérebro, destilado em pústulas de licor pensante, é caça que recusa deixar-se capturar, que foge em perpendicular à nossa mira no mais incompreensível movimento de sua forma estática. Impotentes, nós, cada vez mais plurais do primeiro tópico pronominal, tornamo-nos presa de Sua luxúria: o Pensamento transfigura-se em deus, vira-nos Sua face totêmica. O que dizer-Lhe? Como adorá-Lo? Haverá virgindade digna de ser sacrificada em Seu nome? Destarte, ao suceder ao mito o rito, invertemos a história dos fatos antropológicos e eis que, em fins de revolta, criamos um Homem à nossa imagem e similitude.

            Logo, desse seu ontos verossímil, já não mais pensamento-divindade, damos à luz um novo princípio: o pó aspirado em sopro e lançado ao ar em todas as direções coordenadas e abscissas faz-se mundo, tinge-se do branco total da visão, engole as dimensões da física e concretiza-se na realidade sensível, na mais pura matéria pétrea da existência.


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