Seleção de poemas do livro inédito “Osso Vazio” – Por Chiu Yi Chih


para Alberto Marsicano

essa ânsia de escavar à força, com sibilantes maquinações dos diamantes, escarificando o crânio por onde se desatam translações de alto a baixo, essa rotação de sobrancelhas e tumefações no éter, tal como a nervura dos ponteiros se alçando fora das vitrines ou a evasão infrene que bruscamente se assoberba, estalando algumas agulhas histriônicas à nossa espera, tal como o sangue da esmeralda nos torvelinhos de sempre, da cabeça aos pés, essas turmalinas secretadas ao fôlego de límpida resina, essa tempestade de carvões estridentes se soerguendo à altura do pescoço, nossa tentativa de apagar a fome das lânguidas embocaduras, as faces plúmbeas se reclinando sobre a madeira, nosso inverno de políssonas opalas solfejando a intercalação ferruginosa, mal sabendo se aqueles quartzos oculares da suntuosa orquestra permaneceriam na fogueira renitente ao ruído das cavalgadas, onde, de tanto se incharem, os topázios se irrigaram a plenas cutiladas com todas as camisas, chifres e espumas equinoformes sedentas de outrora, onde aos nossos passos se curvaram os penachos da correnteza – esse bafejo estonteante dos estuários – quando éramos incapazes de resguardar os cristais do espólio estrangeiro, incapazes de perceber que as turquesas, tropeçando nos abismos do céu, já tinham pavimentado em cada braseiro-cinturão, uma usina de safiras, uma constelação tão vívida, tão temível, como essas abóbadas, essas volutas de rubis incandescentes que se exalam de nossas gargantas


enquanto uma estrada de fogo insufla o eclipse inexprimível das molduras insulares, com os seus rangidos que se recurvam até os vidros vacilantes, com as suas manchas proscritas que se encravam nas imensidades, um tumor se enrubesce em cada veia adormecida, em cada derrisão que ressuscita uma raríssima regeneração de rasgos e desmembramentos, tal como se a espuma nutrida nas etéreas inervações dilapidasse as silhuetas abstrusas de um presságio azul, revolvendo-se às custas da opulência de asfaltos que todavia se estendem além das secreções de chumbo, como se nada pudesse ser fixado nas fétidas e difusas difamações, como se contra as multidões inenarráveis, um coágulo se imiscuísse com a embriaguez das engrenagens naquele crepúsculo inverossímil, naquela audácia fatídica, por onde o cascalho das catástrofes escancara a insolente barbaridade de águas adiposas e vidas imantadas nas cordas destemidas, como num instante indiviso em que os pensamentos são inexoravelmente arremessados ao maremoto ruminante de todas as malhas desvencilhadas


primeiro, numa leve e tímida ondulação, e depois, numa insolente elevação atingindo o clímax de um relampejo estonteante, como que renascido, reconstituído, trêmulo pedaço se esboçando num céu cego e dilacerado: órgão inerme debaixo dos dedos de um arco-íris: júbilo incontido de um pulmão absorvido pelas axilas rotatórias ou quando um sopro de âmbar arrasa um pélago membranoso, e assim com os ossículos de areia num movimento cada vez mais sísmico, que desde o início cresce sem partes, sem prelúdios, e logo se agiganta, impávida lamparina içando suas velas subcutâneas, quando então, longe de quaisquer aspirações ao sono absoluto, se entremeando com os raios das solitárias insídias, como se o mundo cavoucando a órbita de uma estrela inerte pudesse acender uma conspiração de fetos faiscantes, permeando os nós sobressalientes até as lentículas torrenciais, em fenecimentos sibilinos, escarpados cântaros, ânforas pressurosas e jorros de cardumes: assim, à margem de todos sinais demarcatórios, se aterrando e se aninhando nas côncavas ferraduras, nas raras protuberâncias, como se outros arcos de alumbramentos se desfizessem em encrespadas cápsulas de cavalo serpentífero que ardilosamente se desviam das linhas geodésicas: como se nada mais houvesse de maledicente, e apenas do fundo de uma tremulação na cabeça, com os sulcos de folhagem decuplicando cabeleiras e raízes de uma paisagem assombrosamente rústica, o crânio todo hirsuto sob o ronco dos fungos flageliformes, à contraluz transmigrando com as outras cabeças centrífugas, assim quando uma braçada de ranúnculos o arrancasse para sempre da sua camisa, numa cólera de efervescentes e contínuos diálogos com a imensidão e seus orifícios de morte vulcânica


O verdadeiro despertar é inexprimível.

O verdadeiro sonhar é inalcançável.

Liezi

encostada no batente da janela, apesar das tigelas despedaçadas, você ainda transpirava, incisiva e obstinadamente. sem nenhuma resistência, alguns homens de mãos cartilaginosas se afogaram perto das barragens. como uma lagarta ofuscada pela nudez, você ainda permanecia estirada entre revistas e recortes de papéis de jornal. diversos motores e pistões já tinham se derretido. na pressão das lassitudes, no rugido dos pluviômetros, não havia nenhum motivo para que as suas sombras não se fundissem no desdém das folhas imensas. sob o limite da apoteose, todas as plantas estancaram-se com os beiços ramificados. sob uma névoa que acariciava os seus nervos, havia também um pouco de formosura e aspereza. porém, consumindo-se dos aromas de uma intimidade inacessível, a noite foi se condensando em centenas de glóbulos luminosos. do âmago das carnes petrificadas e dos casacos sulcados pelos detritos, escorreu um mar de rostos cilíndricos: rostos que nem pareciam mais rostos, pois, no meio desse cais devastado, o que víamos eram somente as tesouras enregeladas, luvas e capacetes amordaçados: uma fuligem arrastando todo o trabalho acumulado. com uma vela acesa na mão, você ainda continuou engatinhando, resfolegante, como uma fera recém-liberta. ninguém imaginou que isso pudesse acontecer. enquanto um caminhão carregado de barris e sacos amarrotados se afastava, um velho encapuzado começou a martelar as ranhuras encovadas de uma árvore. não sabíamos agora se era a sua voz de madeira ressoando nas brasas ou uma caravana de tubarões agonizando pelas encostas, se era o mais doce ou o mais amargo dos destinos humanos, a lua risonha ou o sol medonho: um oceano inundado pelos excessos de uma fábrica descomunal exalando os odores pútridos de uma cadela, ou mesmo aquilo que, apesar de toda a náusea, destilava o desencanto das fábulas num inexprimível sacrilégio a escorrer uma cascata de fogos tresloucados


Essa é a dimensão mais nobre da viagem:

não saber para onde vamos

nem saber para onde desejamos olhar.

Liezi

 

um rochedo de seiva rutilante, uma rajada sem rosto, como se já não fosse mais osso nem suspiro, nem auréola sangrando na boca, nem genitália difamando astros, mas apenas os cravos enrubescentes, os rastros às bordas do círculo, imergindo no meio do precipício, conclamando os próprios bustos longilíneos a se distorcerem com os milhares de fios de minério entorpecente, ou mesmo sobre os prenúncios sigilosos dos derradeiros frontispícios em que as lâminas seriam capazes de se contorcerem em torno dos edifícios, assim era o seu rosto se comprimindo, de paisagem a paisagem, evacuando exalações, números, pistilos e plaquetas sob o esplendor das efervescências, como se fulminando cérebros à passagem da incessante batalha de sombras desdenhosas, relâmpago serpenteiando por entre mortalhas e memórias junto às abelhas esbraseadas, junto ao cortejo de argolas desfraldando-se ao relento, onde o seu rosto, se comprimindo, ainda se retorcia numa cauda trespassada pelo verde clarão dos lampejos, quando à frente de suas vértebras, um rumor desossava a bonança das gloriosas pilastras de ônix, assim era o seu rosto na ruiva e surda consanguinidade do celeiro vulcânico, cidade de couraças se desgrenhando entre artérias, a primeira faísca que silencia, arco lancinante se alastrando pelo asfalto, mais do que um mero antípoda das matérias, mais do que um refluxo de ametistas sob a mesma nuvem escaldante, um enigma intransponível, porém, uma tormenta que sem eflúvios constela e se incinera, ardor-fissura na trama de todas as distâncias


Chiu Yi Chih é chinês nascido em Taiwan e naturalizado brasileiro.

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