Poemas do livro Hálux, de Marcus Fabiano Gonçalves

N33, Série Área de Cultivo, 2013. Pintura (óleo e acrílica, pastel seco, nanquim, aquarela e crayon) sobre papel, 117x82cm, Lilian Maus.


‘o que acontece ao ar’ é a dança
Herberto Helder


HÁLUX II

a difusa luz na moleira
amornando o mármore
e uns mágicos elásticos
dos atilhos musculares

sorrisos calam martírios
em movimentos suaves
e no cerrar das cortinas
sob as meias tudo arde

o seu castelo de artelhos
vive à beira do desastre
mas em cada sapatilha
algo revoga a gravidade

um pino vivo em vórtice
sustentando-a pelos ares
no ponto de apoio móvel
as forças ocultas do hálux.


 

faça como um velho marinheiro
que durante o nevoeiro leva o barco devagar

Paulinho da Viola

 

O NÁUTILO

à razão áurea de sua concha curva, desenrosca-se uma espiral logarítmica: na foz dessa cornucópia é onde a cabeça dele habita, lá ao final das câmaras nacaradas unidas por sifões e tabiques. passageiro, carga & tripulante: come, comanda e faz a faina armando-se em nau furtiva de longo alcance. move até noventa tentáculos e ostenta um par de olhos quase nada apurados. todavia é bem apto a notar odores próximos e ao largo. resiste à hipoxia só com o oxigênio de seus cilindros, nadando como quem navega por jorros e jatos propelido. oriundo dos antanhos mais primitivos, precede plantas e dinossauros. vem das priscas eras de uma fauna marinha fervilhante em seu caldo. sua boca (dita rádula) é um ralador de peixes e crustáceos. fóssil vivo do mundo inteligente, traz no cérebro uma cápsula do tempo, emprestando nome ao submarino do capitão Nemo: Nautilus, do grego marinheiro (ναυτίλος).


 

Quando estive entre os selvagens,
muitas vezes arrancaram-me pedaços dos dedões.

Hans Staden, Duas viagens ao Brasil

ANDIRÁ

dá bom dia ao galo e boa noite ao leiteiro quando reparte com a ave de Minerva a lua pressagiosa dos andejos. e antes de se homiziar em cavernosas catedrais ou sótãos ensombrados, encharca sua cabeça para sonhar um sono descapotável sob as asas de carne. aí repousa pendurado escutando o biossonar de seus confrades: guincho agudo contra o dolce farniente dos notívagos e afazeres de viandantes destemidos. ao longe emana asco discreto ou pífio. parado e de perto é que é muito horrível esse ás condecorado pelos despistes mais exímios. pilota-se como aeronave de caça capaz de fuga ou encarniçado encalço. temem que cultive a zanga e o fasto de um mastim do Cáucaso, embora seu cartaz de mero rato alado. dos planos de voo suprime qualquer traço, deixando uma desorientação de assombro como rastro. mama e parte em ziguezagues esse bebedor de sangue latino. nas suas selvas de origem, ignora donzelas apetecíveis ou jugulares sugadas por caninos. menos malévolo e bem mais furtivo, sua saliva inocula um anestésico profícuo. conduz assim toda uma tribo ao riso quando fura e chupa o dedão do pé de algum índio dormindo. é o terror na rede dos distraídos, o nosso vampiro hematófago nativo: pousa na cruz e até bebe água benta, esse Drácula implume no condado das penas.


 

Determinei de escrever
A minha çapataria
Por ver vossa senhoria
O que sae de meu coser

Que me quero entremeter
Nesta obra que offereço:
Por que saiba o que conheço
E quantas mais posso fazer

Gonçalo Bandarra

O ÇAPATEIRO

37 e ½,  a mais procurada. jacta-se das suas fôrmas de medida exata. assim como de notar certos detalhes bem minúsculos. alcança das ferramentas o melhor uso. é paciente no polimento, leve no pulso. sabe quando o hálito e o lustro revelam seus frutos, apesar da recusa em ser tratado como engraxate. recorda que sua guilda remonta a longa linhagem. e cita um vago judeu, grão mestre de sua arte. é firme no martelo e exato na goiva, preciso com estilete e tesoura. por seu esmero chamam-no o bigorna de ouro. a sua agulha só usa linhas embebidas em cera. jamais sintética, sempre de abelha. delega à esposa os forros de cetim e de seda, tendo há bem pouco aderido à cola tóxica. queixa-se de sua textura viscosa e seu odor de galochas. por isso ainda guarda, em especial para as botas, uns cravinhos de madeira mergulhados em álcool. confia no seu inchaço para acoplar um solado. revende couros por peças e retalhos, do mais barato ao muitíssimo caro. socorre mulheres trocando fivelas e saltos. remenda o roto e renova o gasto. com a crise passou a aceitar variados reparos, de malas a zíperes enguiçados. comprou uma máquina de ilhós embora abomine cadarços. acha o tênis um fiasco vulcanizado, a nova chanca dos jovens bárbaros. reprova a gáspea alta com lingueta acolchoada, sobretudo a de origem asiática. defende o bico fino contra o quadrado e suspira uma elegância de passos estalando no assoalho. proclama sua meia-sola como a ressurreição de um calçado. e segue anotando umas trovas quando o serviço é mais raro.


 

CERNIR O CARDUME

anilhas e ligas
em cota de malha:
estrutura flexível
e embora una
desmembrável

a nadar diante
do homem-rã
a bolha metálica
coreografada

espessa e viscosa
do baile à manobra
a gota de mercúrio
mais viva e atóxica

a massa velocíssima
de miúdas sardinhas
inumeráveis, fluidas

nunca pacientes
como as formigas:
navalhas nervosas
na mesma rixa.


 

SERRA DO ESPINHAÇO

um cinturão de sempre-vivas constela-se pela turfa. brotam sob o solo delas certas águas que enferrujam: as vasilhas carcomidas, os bules de flandres, o zinco das bacias. então beber ou banhar-se nos ruivos caldos dessas tinas, com o ferro das sangas filtrando o barro das moringas e um antigo balde (obra rara de tanoaria) descendo onde a fonte fresca mina. range o sisal da corda que de novo drena a veia aquífera. as sedes cessam ânsias e cobiças quando o crepúsculo dos cafés apaga-se ao sono dos ouropéis encapelados. no fundo do poço um espelho desperta em seu regaço. no seio da terra alumia-se o leite galáctico à vista do tropeiro acantonado entre muares. 


 

nos 40 anos do atentado à imagem de Nossa Senhora Aparecida


(RE)APARECIDA

fiéis reverentes
às mãos ambas
apeiam da chalana

e na pegajosa lama
do remanso
atestam as sotainas:
deveras, eis a santa

sob manto e coroa
sem tinta ou gesso
a terracota fita
onde haja
encorajamento

grãos em vagens
pistilos guenzos:
rodeavam-na
viçosos e derruídos
jovens e avoengos

um mormaço
cresta os beiços
e peregrinos
caem de joelhos
ante à padroeira

uns imitam cilícios
ao simular calvários
outros erguem círios
carregando ex-votos

dando graças
de salve regina
muitos choram
frente à figura
reconstruída
dos destroços. 


 

Marcus Fabiano Gonçalves (1973) é gaúcho e mora no Rio de Janeiro, onde é professor de Hermenêutica e Filosofia do Direito na Universidade Federal Fluminense – UFF.

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