TRADUÇÃO

Federico García Lorca por Luis Marcio Silva

Tradução de três poemas extraídos de Libro de Poemas (1921), obra do escritor espanhol García Lorca que este ano completaria 100 anos de estreia na poesia.


O Pressentimento

O pressentimento

é a sonda da alma

no mistério.

Nariz do coração,

Cajado de cego,

Que explora na escuridão

do tempo.

O Ontem é opaco,

o sentimento

e o campo fúnebre

da recordação.

O Anteontem

é coisa morta

Refúgio de ideias moribundas

De Pégaso sem freio.

Erva-daninha de memórias

E desertos

Perdidos no nevoeiro

Dos sonhos.

Nada turva os séculos

Passados.

Não podemos

Extrair um suspiro

Do antigo.

O passado se fixa

em couraça de ferro

e cobre os seus ouvidos

com algodão de vento.

Nunca se poderá arrancar-lhe

Um segredo.

Seus músculos de séculos

E seu cérebro

De opacas ideias

em feto

Não darão o elixir de que necessita

O coração sedento.

Mas o menino futuro

Nos contará algum segredo

Quando brincar em seu quarto

De luzeiros.

E seria fácil enganá-lo;

Por isso,

Demos-lhe com ternura

nosso seio,

Pois que a toupeira silenciosa

Do pressentimento

Nos trará seus chocalhos

Enquanto estiver dormindo.


Novembro

Todos os olhos

Estavam abertos

Frente à solidão

Arrancada pelo pranto

Tic

Tac

Tic

Tac

Os ciprestes verdes

Guardavam sua alma

Enrugada pelo vento

E as palavras como foices

Ceifavam almas de flores

tic

tac

tic

tac

O céu estava vazio,

Ó tarde cativa pelas nuvens

Esfinge sem olhos!

Obeliscos e chaminés

Faziam bolhas de sabão

Tic

Tac

Tic

Tac

Os ritmos se curvavam

E se multiplicavam no ar,

Guerreiros de névoa

Faziam das árvores

Catapultas.

tic

tac

tic

tac

Ó tarde

Tarde de meu outro beijo

Tema longínquo de minha sombra

E sem raio de ouro

Sino vazio.

Tarde desmoronada

Sobre piras de silêncio

Tic

Tac

Tic

Tac


Hora das Estrelas

O silêncio redondo da noite

sobre o pentagrama

do infinito.

Saio desnudo pela rua

maduro de versos

Perdidos.

O negro, cravejado

pelo canto do grilo,

Tem esse fogo-fátuo

Morto,

de ruído.

Essa luz musical

Que percebe

O espírito.

Os esqueletos de mil mariposas

Dormem em meu recinto.

Há uma juventude de brisas loucas

Sobre o rio.


W. B. Yeats traduzido por Luis Gustavo Cardoso


NÃO HAVIA UMA SEGUNDA TRÓIA

Por que eu deveria culpá-la por ter enchido
de miséria meus dias, ou por ter depois ensinado
a homens ignorantes as mais violentas vias,
ou impelido as ruas pequenas sobre as grandes,
tivessem senão tanta coragem quanto desejo?
O que poderia tê-la feito plena de paz com uma cabeça
que a nobreza forjou simples como o fogo,
com a beleza de um arco envergado, uma
que não é natural em tempos como estes,
sendo altiva e solitária e sobretudo austera?
Por quê? Que mais ela poderia ter feito, sendo quem é?
E por acaso havia outra Tróia para ela destruir?

*

NO SECOND TROY

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done, being what she is?
Was there another Troy for her to burn?


A AURORA

Eu seria ignorante feito a aurora
que mirava abaixo
aquela velha rainha medindo uma torre
com o ferro de um broche,
ou os homens decaídos que viam
da sua pedante Babilônia
os planetas descuidados em suas rotas,
o alheamento das estrelas em que a lua entra.
E pegavam seus tablets e faziam contas;
Eu seria ignorante feito a aurora
que apenas ficava, batendo no carro brilhante
sobre os ombros nebulosos dos cavalos;
Eu seria – pois saber algum vale a pena embora –
Ignorante e devasso como a aurora.

*

THE DAWN

I would be ignorant as the dawn
That has looked down
On that old queen measuring a town
With the pin of a brooch,
Or on the withered men that saw
From their pedantic Babylon
The careless planets in their courses,
The stars fade out where the moon comes.
And took their tablets and did sums;
I would be ignorant as the dawn
That merely stood, rocking the glittering coach
Above the cloudy shoulders of the horses;
I would be — for no knowledge is worth a straw —
Ignorant and wanton as the dawn.


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